terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O PARADOXO RACIONAL






Quanto menos se interfere, mais a natureza se revela.







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domingo, 5 de dezembro de 2010

CONEXÃO





Música vem de cima.
Literatura vem de baixo.









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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

FALAR DE AMOR COM A EX-NAMORADA



Oi...

Fiquei instigado pelo nosso começo de papo, na internet, sobre namoros.

Acho mesmo que esse assunto é sem fim e que a gente só vai conseguir brincar de falar disso quando for pessoalmente mesmo.

Ainda assim, fiquei com vontade de fazer uns comentários iniciais.


Tipo assim:

a gente concorda que monogamia é uma opção. Uma opção racional, consciente, podemos até chamar de "madura" se quisermos.

Mas será que namoro tem a ver com razão, consciência ou maturidade?

Pensa só: sendo consciente, racional e tudo mais, seria uma tremenda besteira namorar alguém de nível social ou cultural muito diferente do meu. Sim, ainda que você não curta o exemplo da grana, entende a idéia: é muito mais fácil eu conviver bem com alguém que tenha valores e experiências parecidos com os meus.

E aí? Será que a gente escolhe quem vai namorar? Certamente pode escolher. Mas a gente escolhe de quem gosta? Acho que não.

Outro dia, eu estava conversando com um grande amigo. Ele me levou a pensar sobre uma relação que tenho há muito tempo. Vou falar dela porque tem tudo a ver com nosso assunto.

Tenho uma amiga que me acompanha há quase dez anos. Ela é paulista, mora em Sampa. Ao longo desses anos, tirando uma média, se nos vimos pessoalmente três vezes por ano foi muito.

Quando nos vemos, normalmente a gente fica, transa, até já dormiu juntos algumas vezes. Ainda assim, é uma das pessoas mais próximas que tenho. Falo com ela direto e somos um para o outro grandes companhias quando estamos tristes, em crise ou algo assim.

Ao longo desses dez anos, já namoramos terceiros. Quando estamos comprometidos, não ficamos um com o outro. Quando terminamos nossos namoros, voltamos a ficar.

Eu amo essa minha amiga. Ela sabe disso. E eu sei que ela me ama. Dizemos isso um ao outro o tempo inteiro, e já tive oportunidade de contar com esse amor em certos momentos de necessidade.

Quando estou solteiro, ninguém me condena por amar essa amiga. Ou por amar você. Ou quem quer que seja.

Solteiro, estou livre para amar e espalhar meu amor por toda parte.

Já quando estou namorando alguém, só posso amar minha namorada. Às vezes preciso até dizer às namoradas que já deixei de amar a namorada anterior. Isso as deixa mais tranqüilas. De quê, eu não sei.

Agora vê: eu e você temos uma relação de evidentes e notórios carinho, afeto, eu diria até amor mesmo, sem nenhum exagero.

Eu amo você, mulher.

Agora imagina: se eu estivesse namorando com você, como você se sentiria se eu dissesse que amo essa minha amiga, com quem de vez em quando me encontro de maneira CARNAL?

Sendo racional, você certamente compreenderia que é sem nenhum sentido a idéia de que DEVEMOS amar apenas uma pessoa de cada vez. Mas será que você seguraria essa onda?

Em caso afirmativo, mais uma vez, você é uma belíssima exceção. Em caso negativo, nada demais: apenas mais um exemplo do grande equívoco que eu vejo nisso que a gente normalmente chama de "amor".

Amor, acho eu, não tem absolutamente nada a ver com "relação". Posso namorar alguém por pura carência. Ou por comodidade. Ou por vaidade. Posso namorar alguém apenas para provar a mim mesmo que sou digno de ser amado.

Por outro lado, se eu amo você, não vai ser o fim de um namoro que vai mudar isso. Porque se uma "decepção" qualquer acaba com o amor, convenhamos que aquilo nunca foi amor.

Entende? Eu até acho legítimo que algumas pessoas se sacrifiquem tentando encaixar seus sentimentos em uma fórmula de relação que não é nem universal. Em vários países e culturas, um homem pode ter quantas mulheres puder sustentar e agradar. E nesses países, a mulher pode trocar o harém de um homem pelo de outro.

Então convenhamos que não há nada de "natural" no "namoro" ou na "monogamia". Agora: sem dúvida, parece que algumas pessoas SENTEM de maneira apropriada a essa fórmula. Se fosse meu caso, eu nem precisaria pensar no assunto.

Mas não é.

Além disso, quanto à "vantagem" de abrir mão de tudo e focar no namoro, acho isso tudo bem relativo. Já vivi solidão a dois e já vivi a plenitude sozinho. Já namorei sem nenhuma paixão, apenas porque todo o resto tinha a ver, e isso acabou parecendo uma pequena morte. Como se eu, por medo da vida, optasse por ficar quieto em uma história mais ou menos, mas que pelo menos era real. "Melhor do que nada", eu diria ali.

Conversando com esse meu grande amigo, vi que já tenho em minha vida algumas poucas (poucas mesmo) e ótimas amizades, algumas várias ótimas parceiras sexuais, além de ter, dentro de mim, a certeza de que esse vazio que eu e todo mundo sentimos no peito só pode ser preenchido por mim mesmo.

Sempre que eu tentar preencher esse vazio com outro ser humano, que posso chamar de namorada, estarei apenas adiando o momento do término. Porque não há mulher nenhuma no mundo que seja "metade de mim". Mulheres são seres inteiros, assim como homens. Todos imperfeitos, cheios de carências, mas, ainda assim, pessoas inteiras.

Entende de leve o pobrema todo? Esse não é nem de longe um assunto simples.

Por enquanto, estou solteiro. No momento, não consigo acreditar na fórmula do namoro. Posso mudar de idéia. E não, não desisti de tentar. Mas como já acumulei alguma experiência, em certas ciladas não caio mais.

Digaí.


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terça-feira, 30 de novembro de 2010

WIKILEAKS, CARIOCA WAR AT THE FAVELAS AND THE OFFICIAL TALK






Não à toa, Zé Carioca era um papagaio.
Agora repete.







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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

GÜERRA? MA CHE GÜERRA?


Peraí: não tem ninguém aqui chorando pela África hoje?


Hoje o obrigatório é Vila Cruzeiro?
Qual é a diferença?


Amigo meu, do Leblon, se considera judeu. Qualquer coisa em Israel tira ele do sério.

Para ele, Israel é mais longe do que a Vila Cruzeiro?

Nunca o vi levar comida ao morro. Aliás, ele aponta o dedo pra quem sobe o morro atrás de algum escambo. Morro é pra nem ser lembrado.


Em Copacabana, tudo maneiro.



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sábado, 20 de novembro de 2010

PROFISSÃO






Platão > plantão









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RELAÇÃO






terminar = exterminar









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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

TOLERÂNCIA






Intolerável, só mesmo a virtude.









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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O PARADIGMA DO DESENVOLVIMENTO







Um carro é uma cadeira de rodas.








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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

DE ASFALTO E TERRA VERMELHA


Deve ter uns três anos, acho, estava brincando com meu violão e pedi a papai do céu.


Puxa, eu daria qualquer coisa para saber cantar.


Sério. Eu brinco com música desde que nasci. Coloque qualquer instrumento nas minhas mãos, dê umas duas semanas e volte para conferir se eu já não engano por alguns segundos.

Foi assim com o sax tenor, por exemplo.

No ano de noventessete, dei a mim mesmo um saxofone de presente de aniversário. Digo: dei a mim mesmo ao longo de doze meses.

Comprei o instrumento em um dia, brinquei com ele, viajei para o exterior três meses depois, voltei, toquei mais uma semana e fiz meu primeiro show ao vivo como saxofonista.

Um ano e meio depois, tirei a carteirinha da Ordem dos Músicos.

De maneira alguma estou tirando onda. Tantas são minhas incapacidades diante do mundo real que me reservo o direito de dissertar sobre minhas facilidades.

Tocar sempre foi natural. Tocar, compor... Sim, compor. Sempre foi natural. Tirar música enquanto assisto à TV... Tudo natural.

Agora: cantar é outra coisa.


Minhas memórias mais antigas sobre o canto me remetem de volta ao município de Nova Friburgo, na serra do estado do Rio de Janeiro.

Naquele aprazível logradouro, curtia eu vez em quando minhas férias escolares, dado que eu tinha acesso às instalações militares brasileiras, inclusive ao Sanatório Naval convertido em clube exclusivo da Armada.

Era toda uma colina pertencente à Marinha do Brasil. Sim, no alto da serra.

Ali, eu e dezenas, punhados de cada vez, de jovens, crianças, na verdade, filhos de oficiais confraternizávamo-nos, namorávamo-nos, passeávamos pelo cemitério desativado e vez ou outra tocávamos violão.

Lembro que certa vez me arrisquei a cantar. Lembro que meus amiguinhos silenciaram, eu morri de vergonha e nunca mais me atrevi.


Eu tinha uns... Quatorze ou quinze anos. Tocava guitarra havia uns dois.


Depois dessa tremenda vergonha inicial, nunca mais cantei. Não sou capaz de dizer se todos silenciaram porque fui péssimo. Hoje, inclusive, olhando em retrospecto, acredito que eu tenha me saído bem. Mas a posição de centro do palco simplesmente me travou para sempre.

Ou assim eu pensava.

Tendo a crer que, naquele momento, fui apreciado porque, lembrando-me bem, havia uma menina, aqui chamada de Júlia (nome fictício mesmo), que, linda como só ela, morena, tipo cor de canela mesmo, gostosa em toda sua adolescência, chegou em mim e justo na sauna a vapor. Justo onde eu estava sem camisa, igualmente adolescente, cheio de espinhas e sobrepeso, cabelo em crescimento irregular, e mesmo assim eu acabei por faturar a namorada.

Certamente eu devo ter cantado direito.

Essa namorada, que eu chamo ficticiamente de Júlia, serviu também para inaugurar um padrão que se revelou ao longo dos anos: com Júlia, a fictícia, formei uma dupla. Não era sertaneja, mas era ela quem cantava. Eu apenas tocava.

De Júlia ao Glamourama, sempre formei em torno de mim ou aderi a estruturas musicais que me dispensavam de cantar. Cheguei a compor músicas inteiras e entregar ao amigo ao lado.

Por vergonha.


De qualquer forma, só me lembro de ter sentido vergonha parecida nesta vida uma única vez: ano passado, em São Paulo, quando tentei fazer meu primeiro show sozinho, voz e guitarra.


Esses foram meus dois momentos mais vexatórios na vida.

Cantando em Nova Friburgo, cantando em São Paulo.


Mesmo assim, tendo já vivido trintetrês, tendo aprendido a máxima anônima segundo a qual "se você nunca sentiu medo, vergonha ou dor é porque nunca se dedicou ao que considera realmente importante", insisti e fui em frente.

Na verdade, confesso, mais uma vez na vida, não precisei insistir tanto. Eu vou insistir. Aí sim. Aí estou sendo justo. Mas não precisei insistir.

Nos anos de doismilessete e doismileoito, eu estava em Brasília, trancado, estudando, meditando e... compondo, é evidente.

Dadas circunstâncias muito específicas, eu estava de posse de todo o tempo do mundo para me dedicar às coisas que, havia descoberto, me pareciam realmente fundamentais. Foi nessa onda que voltei a compor de com força.

Compor coisas completamente diferentes das anteriores, como aliás descobri estar expresso até mesmo em meu mapa astral. A reinvenção constante.

Curioso.

Mas estava eu compondo, chegando às raias do samadhi toda hora, pirando no êxtase de uma simples corda vibrando sozinha, e resolvi ser ousado de uma vez.

Matriculei-me na Claude Debussy, uma escola de música da capital.


Três aulas com uma professora que me lembrava demais minha querida avó - outra aficionada do canto - e eu estava pronto.

Pronto para encarar qualquer coisa.

Até o show de São Paulo.

Concomitantemente a isso, eu já estava relativamente de posse da emissão mínima suportável de minhas cordas vocais. Eu já era ali capaz de ao menos traduzir em voz as notas que me vinham à cabeça.

Dali para frente, seria apenas praticar. O principal, que era perder o medo de encarar uma parede e emitir um DÓÓÓÓÓÓÓÓÓ com todo o coração, eu já havia superado naquela sala de aula, ao lado do piano desafinado da sósia de minha querida avó.

De formas que, quando resolvi deixar Brasília, rumo a São Paulo, eu já era capaz de entoar ao menos um punhado de mantras de minha autoria.


Um desses foi o que gravei igualmente por brincadeira, no laptop iluminado de Bruno Cardoso, em companhia de Helena, Bruna, Cecília, Luiza e Daniela, minha querida "Quarta-feira em brasa".

Foi essa mesma gravação que, enquanto eu morria de vergonha no show de estréia em Sampa, percorria o espaço virtual e me rendia o convite.


O convite para que a música adentrasse a trilha sonora do filme "De Asfalto e Terra Vermelha", de Camila Freitas e Antoine D'Artemare.

Uma coprodução Brasil-França de trintecinco minutos sobre a capitar federar brasileira.

Fui assistir ontem, no Centro do Rio.

O filme é uma obra digna de atenção. Sem me esforçar para parecer isso ou aquilo, digo que a narrativa é a síntese da cidade. É possível conhecer Brasília pelo filme, é possível conhecer o filme por Brasília, é possível conhecer a narrativa pela cidade, vice-versa, os planos são definitivos, os depoimentos merecem minha assinatura embaixo de cada um deles, até a música, sim, a música, serviu para coroar aquela obra como jamais poderia supor.


Esta é a segunda vez em que me vejo relacionado a uma tela de cinema e esta é a segunda vez em que isso me emociona profundamente.


Desta vez, só para maltratar meu coração, era eu cantando.

Minha voz, meu violão, minha música...

E quando a música entrou, eu achei aquilo tão lindo e demorei uns cinco segundos para perceber que era eu mesmo quem estava tocando.


Essa sensação foi indescritível.


De uma coisa eu sei: posso ter o destino mais cruel que alguém possa imaginar, mas hei de perecer agarrado a um violão, gemendo as coisas baixinho, de um jeito que sempre fez sentido para mim e que, parece agora, faz algum sentido para as outras pessoas.




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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

OS DOIS TIPOS DE JUDEUS


Etnicamente falando, e não em termos de crença ou prática,

existem dois tipos de judeus: o depressivo e o esquizofrênico.


O depressivo acha que nem é judeu. Ele é normalmente melancólico pra cacete, embora tenha grandes rajadas de humor. Faz piada de si mesmo e de tudo, transcende o tempo todo, esse é o meu tipo. Meu, do meu pai, do meu avô, do Woody Allen, do Bob Dylan, do Iggy Pop, do Seinfeld, do Einstein.

Esse primeiro tipo, o depressivo, o melancólico, costuma ser apelidado de self-hating jew.

O judeu que odeia a si mesmo.

Esse tipo de judeu costuma responder dizendo-se, na verdade, um self-loving man.

Porque antes de ser judeu ele é homem e ama sua espécie.


O segundo tipo é o esquizofrênico. Os avós dele falam ídiche, mas ele aprende hebraico, porque está na bíblia; ao mesmo tempo, se veste igual a um romeno, de terno e chapéu preto, já que veio da Europa; mas se identifica com o Oriente Médio, mas usa trancinhas também, para combinar com a barba de dois milanos atrás. Esse judeu, desse segundo tipo, tem certeza de que é judeu.


Esse segundo tipo sabe bem identificar o que é um não-judeu.

É por isso que me limito a falar apenas sobre o que conheço.



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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A METANÓIA E O DETRATOR


Hoje em dia, qualquer um que não seja egoísta com o conhecimento ou com qualquer outro poder que detenha é motivo de chacota.

Abrir mão da vantagem?

Vira coroinha, moralista, idealista, rótulos não faltam para o escárnio.

Lembre-se sempre de que tem gente por aí que curte. Tem gente que curte, aprecia, dá valor e chega até a se emocionar quando se aproxima.

Gente assim, que reconhece o valor, por viver em um ambiente onde poucos são assim, na tentativa de dividir a alegria que você mesmo causou pode até passar do ponto: sem muitas referências às quais possa compará-lo, você pode se perceber alvo de um elogio que nem cabe em seu ego.


Ontem ouvi: "você é muito... harmonioso. Harmonioso assim... Como o...".

Não vem ao caso quem.


Lembre-se sempre: tem gente que curte. Gente assim, que curte, que aprecia, é gente com sensibilidade. É gente com olhar atento, atento a ponto de flagrar a diferença entre o meio e o sujeito que tem diante de si. E é gente com desejo de ser melhor.


O que você pode esperar de alguém que nem cogite a existência de uma melhora, de um aprimoramento?

O que esperar de gente que subestima a vida, o aprendizado?


Gente que gosta de acreditar que já nasceu pronta, embora saiba, na intimidade, que está o tempo todo abrindo concessões a novas conclusões. Gente assim há aos montes. Gente que muda o tempo inteiro, mas que vê humilhação em flagrar-se e admitir-se carente de mudança.


Eu tenho bem clara a resposta a uma pergunta que anda circulando pela mídia, reflexo do crescimento industrial de certas religiões - ou denominações - ou seitas - ou empresas mesmo.

Hoje em dia, questiona-se:

por que é que os evangélicos de hoje são sempre os drogados, os bandidos, os canalhas, os assassinos de ontem?

Será que é preciso descer ao fundo do poço para ver realmente a luz de verdade? Será que eu, que sofro como todos neste planeta, não pude já ver toda a luz que há para ser vista? Por que acreditar que preciso ir até o que há de mais negro antes que comece uma subida?


É simples. Porque a mudança de rumo vem do sofrimento, sim, sem dúvida, mas não é apenas o sofrimento que vai garantir a mudança de rumo.

A mudança, que os gregos chamavam de metanóia, vem de o sujeito perceber-se sofrendo. Ao perceberem-se sofrendo, algumas pessoas são capazes de perceber que sofrem por conseqüência de seus próprios atos. Ao perceberem isso, algumas tantas notam inclusive que não adianta endurecer a coluna e defender seus próprios erros até o túmulo.

Tendo percebido isso, a inutilidade de negar a própria realidade, começa a nascer no indivíduo algo sobre o que não adianta falarmos: ou se vive ou não se vive.


Refiro-me ao arrependimento.


É quando o homem percebe que seu sofrimento é fruto de suas ações, e quando nota que vem tomando as decisões erradas, fazendo multiplicar-se aquele sofrimento inicial, que nasce em seu peito o arrependimento.

Do arrependimento, como citavam os gregos, surge a mudança de rumo.


Sempre que ouvir alguém dizer que só se arrepende do que não fez, tenha certeza de estar diante de um cego.

Sempre que alguém classificar uma idéia ou um ato seu como moralista ou idealista, tenha certeza de estar diante de alguém que ainda não entendeu o processo.


Alguém cuja visão não vai muito além desse véu.


É como costumo dizer:

se eu estiver certo, não adianta discutir comigo;
se eu estiver errado, não adianta discutir comigo.


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domingo, 31 de outubro de 2010

OPOZORILO!



Esqueçam o desenvolvimento.
Tentem um reenvolvimento.


Esqueçam a industrialização.
Tentem uma desindustrialização.


Esqueçam o agronegócio.
Tentem a terra.


Esqueçam a inclusão.
Tentem a possibilidade de opção.


Esqueçam o consumo.
Tentem o deleite.


Esqueçam a escassez.
Tentem a desconcentração.


Não vejo o acesso a eletrodomésticos, ao cartão de crédito e ao automóvel como melhoria na vida de ninguém. A fim de fazer girar a roda do consumo e da riqueza indireta, pisoteia-se a horta que alimentaria com sobras tanto o vassalo quanto o suserano.


Esqueçam o poder.
Tentem o amor.


Até lá, não me perturbem com esperanças.



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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O RACIONAL HOMEM VERMELHO


Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do atual estado de Washington, enviou uma carta ao presidente dos Estados Unidos da América (Francis Pierce).


"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência.

Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.

Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos.

E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos.

Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes.

Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco.

A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã.

Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos, temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda, é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos.

Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos.

Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."


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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

AUTOTRÓFICO


Eu tenho um pedido para o ano novo.

Se eu pudesse pedir qualquer coisa, pediria para que aquele papo todo sobre alimentação prânica fosse verdade.

Tem um grande amigo meu que ficou de ir conferir. Encontrar-se com um homem que se diz praticante e depois contar como foi.

Ser possível alimentar-se do prana não é a única coisa que eu quero ou espero do ano novo, mas é algo que não depende de mim, concorda?

Mas é isso mesmo, eu abriria mão de pedir qualquer coisa para o ano de 2011, se descobrisse que posso, de fato, deixar de me alimentar com comida.

Esse papo de, todo dia, pelo menos uma vez ao dia, ter de parar o que estou fazendo para enfiar vegetais - ou pior, cadáveres de animais - para dentro é caretice demais para minha cabeça.

É óbvio e evidente que não sou tão louco assim, a ponto de tentar por conta própria. Tenho o hábito - mesmo - de jejuar, às vezes por dias seguidos, mas estou realmente falando sobre um passo além.

Bem, se não for possível simplesmente parar de comer e passar a me alimentar do prana, então eu gostaria que meu jejum não me desse acidez estomacal e nem mau-hálito.

Posso jejuar em paz? Na moral?

Outro dia, tive um impulso e uma emoção de doçura que me surpreenderam:

no momento, estou morando em Copacabana, possivelmente um dos logradouros mais cosmopolitas do mundo (se não for o mais cosmopolita de todos).

Vizinho à minha caverna, há um supermercado 24 horas. Ali, o atendimento é pior do que péssimo, visto que é o único supermercado das redondezas.

Sem a tal da concorrência, os donos daquela unidade do Grupo Pão de Açúcar vêem-se no direito de disponibilizar apenas um sexto dos caixas instalados na loja, fora o fato de que meus companheiros de bairro também já foram acometidos da idéia de que pagar as compras no cartão, em vez de usar dinheiro vivo, é chique, é elegante e prático.

Ainda que leve o triplo do tempo.

Mas o fato é que eu estava ali, na fila do caixa, há cerca de nem sei mais quantos minutos. Todo mundo bufando atrás de mim.

No limite da paciência, tendo percebido que nenhum dos itens que eu pretendia adquirir compensava aquele tratamento tão horroroso, subitamente larguei as compras diante da funcionária - havia apenas uma cliente antes de mim agora - e saí em disparada de volta para casa.

Esse foi o impulso. Não pretendo voltar ao supermercado Pão de Açúcar até que seja realmente indispensável.

A emoção, doce, doce, estranha, manifesta automaticamente em leve sudorese, princípio de lágrimas e verbalização mental, silenciosa, foi a seguinte:

"olha, vocês fiquem aí tranqüilos, mas só se quiserem. Vocês podem ir embora. Eu não consigo nem olhar diretamente para vocês... Saiam da fila. Vou para casa e vou jejuar por vocês".


É, "vou jejuar por vocês".

Ainda bem que foi tudo mental.


Mas eu tenho esse hábito.

De vez em quando, eu entro em umas ondas que, para mim, são fantásticas: fechar todas as janelas dos sentidos e meditar que nem uma planta, ficar sem comer e assim sentir o corpo com mais intensidade, depois nem senti-lo realmente, beirar o delírio, sentir a fome, a dor, a grande dor, o fim da dor, a paz, a continuação da paz, retomar contato até com a coisa física que fica esquecida no dia-a-dia tosco do homem moderno...

Você se lembra da sensação de estar completamente isento de alimentos na barriga e aí sair ao sol, espreguiçar-se como qualquer bicho, fechar os olhos e apenas ficar ali?

Puxa vida, um banho de sol é realmente um banho de sol. É um banho mesmo. A imagem do banho de Lua não chega nem perto de expressar o que é realmente um banho de sol.


Hoje tomei um. Banho de sol. No meio do dia, Centro do Rio, tirei a camisa, sentei-me em uma praça e apenas fiquei ali. Meio-dia e vintecinco.

Você se lembra realmente da diferença que faz ao corpo uma refeição de carne de boi e uma refeição de frutas, ou, ainda melhor, de brotos de alguma coisa? Alfafa, por exemplo. Rabanete.

Lembra da diferença entre a carne e o vegetal puro?

Como seria possível, sem estar vazio de tudo?


Você se lembra da sensação de estar completamente isento de alimentos na barriga e aí saborear um brócolis, um tomate maneiro?

É, eu sei bem.

Hoje mesmo foi o primeiro dia da semana em que almocei direito.

Comi dezesseis rolinhos de salmão com arroz em um restaurante japonês.

Caprichado no wasabi.


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sábado, 23 de outubro de 2010

MR. AND MRS. SMITH


Para Adam Smith,

a felicidade é uma cesta de produtos.


Personalidade fascinante, suponho.



- Chá, senhora Smith?



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NÃO VIM AO MUNDO POR SUAS MÃOS


No dia em que me apresentarem um bebê que tenha nascido com a placenta abarrotada de grana, uma criança cujos pêlos pubianos tenham a marca de alguma empresa, um adulto que beba fluido de motor e coma manufaturas, um senhor que viva uma história de amor com as prestações de sua geladeira ou um velhinho que tenha subido em um automóvel para ir mais rápido ou seguro ao além, eu admito que este estilo de vida é o natural.


Até lá, vocês estão todos apenas tentando encaixar a esperteza de poucos em discursos falhos que consigam obter a fé da maioria.

Mesmo que, para isso, tenham que aliciar as mentes das pessoas e chamar a fé de razão.


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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

QUANTO CUSTA UM VASO


O único avanço realmente concreto da civilização ocidental, o único que pode ser atribuído aos modelos econômicos e filosóficos que surgiram com a teórica intenção de aprimorar as relações dos homens com o meio, com a vida, com os outros homens, é o saneamento básico.

As terras ficaram para poucos, sob o pretexto de que os novos negócios, as empresas, dariam conta da necessidade de renda que daria conta das necessidades vitais que antes eram supridas pela terra.

Estão aí as favelas e a infeliz da desigualdade social toda, que, segundo alguns, é expressão da desigualdade natural entre os homens.

Sem dúvida, os homens nascem desiguais: uns são mais violentos e gananciosos do que outros.


A liberdade, o direito a não levar chibatadas no lombo, mesmo essa é relativa e depende da boa-vontade do monarca da vez. Depende da ameaça que represente o tal do cidadão.

Liberdade de expressão, essa então tem muito mais a ver com ter o que dizer. E isso, submetidas nossas consciências ao antropofagismo cíclico da mídia, temos cada vez menos.


Saneamento básico. Nisso sim, eu concedo.


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CADA UM COM SEU CADA UM



O poder estará sempre nas mãos de quem quer o poder.

O conhecimento estará sempre nas mãos de quem quer o conhecimento.


E assim sucessivamente.


Você quer meu voto? Você quer poder?

Assim que consegui-lo, vai se tornar mais um.

Se tentar caminho diferente, se abrir mão do poder,
vai perdê-lo para quem quer o poder.


Clareza na hora de decidir onde vamos depositar nossa fé.



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